Estava preso ao tempo como se nada tivesse evoluído. Coisa alguma se mostrava engraçada ou atrevida ou extravagante. Eu era o pretérito materializado. Rezava para que aquele carrossel parasse de retorcer as ideias. Um corpo, disforme, sobre a meditação das horas incertas. Entregue. Uma vida esvaia-se por inabilidade.
Construí, então, o meu próprio casulo. Escapar para dentro de mim mesmo, talvez, não fosse a melhor rota de fuga. Mas, só ali existia guarida; e era no que eu me sustentava. Deixei de ser um fiel participante das celebrações do mundo. Mesmo sem ser grande coisa, a distração ainda se mostra um eficiente ópio social.
As poucas vezes que ensaiava um primeiro passo para fora, sentia que o arremeter era mais um recuo. Apenas a morte me era lícita; não por desígnio, mas por abstração. E, sendo assim, já estava íntimo do apagamento. Veio-me uma enxurrada de perguntas. E a minha consciência era a principal inquiridora. Não temia o estado de loucura, mas morrer vivo. E a sandice foi mesmo o próximo estágio.
As respostas seriam a salvação para o meu quase e determinante fenecimento. Porém, onde as encontrar? Elas pareciam se afastar, a cada procura. E imaginava que isso também fosse a vontade de Deus. Então, conformei-me, acreditando ser aquele o único desfecho. Assim, deitei-me placidamente no colo da vida... E foi assim que vi todas as borboletas do mundo voarem em direção às rosas de um imenso jardim.
Misael Nóbrega de Sousa - Professor e Jornalista