Os olhos da noite velavam também a mim o mundo oferecia várias possibilidades eu seguia pelo corredor de minha própria impotência e quanto mais havia apartamento mais havia estrada eram as trevas os mosaicos daquela jornada com suas armadilhas críveis para que valesse a pena seguir existindo e na agonia das horas o remorso pairando a cabeça como os vagalumes que tecem o lusco-fusco gente que se disfarçava de gente para encontrar na coragem teatral a revelação de si mesmo e foram-se os restos que haviam na cavidade da urbe bem lá atrás como que benzendo as esquinas e fazendo escorrer o leite da vida claro que nada daquilo devia ser verdade a utopia era o ganha pão de quem esperava pela autoflagelação pura vida que se embriaga de vinho tinto de sangue de barro e cinzas e tudo deve ser derribado para que não sejamos a materialização das ideias vagas frutos dos enganos é quando pensamos que ainda se está no começo quando na verdade esse tudo é feito do fim a mulher no leito de morte as veias pulsando para fora da pele num último esforço e nas unhas acumuladas as sujeira de toda uma vida teria sido viçosa aquela criatura o que dizer para ela uma pausa propositada em respeito pelo anos que se esvaíam a lembrança é a mais pura herança cato flores no mato da consternação para adornar o esquife e ao vê-la vestida daquele jeito espremida sobre velas e desatinos arrisco um beijo à fronte descoberta e volto pela mesma porta de entrada não ouço mais os cânticos e rezas na madrugada a brisa azeite me acorre às narinas febril aceito experimentar as possibilidades mesmo acreditando que tudo é ingratidão e que nós somos mesmo fantasmas andando absorto a minha sombra agiganta aquilo que se avizinha penso que só assim poderei ser o que bem quiser até mesmo o bruto de minha própria sina no bolso da calça amarrotado como tudo enfim um pano retalhado do passado e que agora é parte do luto e se ainda existo é porque sou um entusiasta sinto na insensatez o cheiro virginal da aurora agarrado ao véu que despenca faço dele a minha coberta e adormeço enfim pouco esperançoso de que pela manhã tudo não passará de um sonho...
Misael Nóbrega - Professor e jornalista