
Maçã do amor; batatas fritas; cachorros-quentes e guaranás; barracas de tiros; algodões doces; jogos de azar; bingos e pescarias; roletas da sorte; balões infláveis; bolas gigantes; as badaladas do sino; as missas e confissões; a procissão... Ela ainda estava lá; um pouco acanhada, é bem verdade. Não diria, resignada... Resoluta, sim! Mas, talvez eu que estivesse diferente.
De 14 a 24 de todos os setembros, a então bicentenária “Festa da Guia” acolhe devotos das paróquias vizinhas. É quando todos acorrem às suas rezas para a igreja Matriz, Catedral de nossos dias. O pavilhão é o coração da festa. As famílias se assentam, após as missas; e, cada novena, é oferecida à comunidade - na forma da eucaristia.
Ao final, todos retornam para as suas casas, tocados pela Virgem Santíssima, porém sem deixar de notar os bancos de azar. O religioso e o profano passam a coexistir num só ambiente: ora lúdico; ora litúrgico... E as jogatinas se espalham pelo corredor desmedido, ignorando as orações.
Aprendi com o escritor de “A Bagaceira” que: “Ninguém se perde no caminho da volta”. E o paraibano Jose Américo de Almeida, justifica: “porque voltar é uma forma de renascer”.
A festa de setembro é também de renovação. Muito embora, não apenas espiritual. Compatrícios elegem no calendário anual aquela data na vida deles. E mesmo morando longe, retornam para os parentes e amigos, pautados na certeza do abraço e da fé.
Nem bem adentrei à Solón de Lucena, antiga “Rua Grande” de meus pais, pude ver, os parques de diversões que se instalavam ali, por tradição; e, que hoje, seduzia as ruas adjacentes. E quando os castelos de sonhos se levantam no centro de minha cidade/mãe, com as cores emprestadas do arco-íris; e por meio daquela imagem todas as gerações tem a oportunidade de se encontrar na materialização da alegria.
O cenatório é de um grandioso circo. Geringonças se amontoam sob a jura do melhor divertimento. Os brinquedos estão ficando mais modernos; e as crianças menos crianças.
Paro no carrossel e não resisto: O “Parque Lima” era o meu playgroud. Conservaria ainda hoje a mesma mágica? Figuras artesanalmente construídas com o madeiro sagrado das idades puerícias. E aqueles cavalinhos nos levavam para qualquer lugar, mesmo fincados no eixo da resignação.
Ainda reminiscente, encontro o aviãozinho de latão, que sem luzes nem nada, conduzia-nos para fora da órbita, numa viagem imaginária. E, por fim, vejo a roda-gigante: que nos colocava acima das casas; e isso bastava para entrevermos o futuro.
Despertei daquele sentimento nostálgico com os acordes da filarmônica 26 de julho. E antes de entrar na igreja, parei para ver a banda passar... uma retreta de tudo que já foi dito.
Ah! Festa de felicidade circular... - Feito esse passatempo que agora vejo a encorajar os beijos adolescentes dos filhos de minha geração.
Já estou quase do outro lado... E o que já era um retrato esmaecido, vai ficando ainda mais no passado. Porém, o que seria de nos se não fosse o renovamento? Obrigado, festa de setembro! Se antes faltava coragem de olhar para trás, agora estou mais confiante por seguir em frente...
Misael Nóbrega - Professor e Jornalista