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EU, MINHA AVÓ E A FEIRA DE CAMPINA GRANDE

Por: Redação Fonte: Anchieta Guerra
08/09/2015 às 09h25

Gosto muito de me recordar de coisas ou fatos que me marcaram no passado. São muitas lembranças que se perderam no tempo, mas, que, vez por outra, reascende na minha memória. Dentre muitas delas, me veio às lembranças da feira de Campina Grande, quando eu, – ainda, menino – acompanhava minha vó Nêga, nos dias de feira.

Sorrateiramente, saiamos “logo cedo” para pegarmos os legumes e as frutas frescas, lá na “feira de banana.” Recordo-me, plenamente, quando ela me indagava sobre a possibilidade de eu um dia me “perder” dela qual seria minha atitude. – meu filho, se você se perder de mim, para onde você vai? Então, eu respondia: – vou direto pro ponto do ônibus – Destarte, ela ficava satisfeita. Era como se aquela resposta servisse de segurança, consolo e alento para ela. Mas, por ironia do destino aconteceu o previsto: perdi-me dela! Então, procedi do modo que lhe dizia. Por bem, tudo deu certo, quando menos esperei, ela chegou. Foi uma grande alegria pra nós dois!

Minha avó, uma mulher de pequena estatura, mas, de grande coragem e determinação; era uma espécie de “mãe” de todos nós filhos e netos, que viviam na sua “sombra.” Todos que moravam perto da casa dela eram agraciados com a presteza e a bondade com a qual ela nos presenteava nos momentos de carências ou das necessidades materiais, éticas e morais, já que trazia consigo as virtudes da honestidade e da seriedade! 

Sem descriminar nenhum filho ou neto, ela “fazia das tripas coração” para ajudar ou proteger seus entes queridos – embora, nem todos reconhecesse a sua grandeza – o que a fazia, às vezes, ficar brava e zangada com alguns. Nada, que ela não contornasse!

Como uma “baraúna” erguida, manteve por anos e anos naquelas “ocaras,” a sua “tribo” de parentes e aderentes. Apaziguo conflitos e atritos que começara surgir com o decorrer dos tempos. Porém, em face da idade e o cansaço que chegava foi cedendo espaço para as doenças e a velhice, sendo obrigada, em face das condições físicas, ter que morar com uma neta, que ela criou como filha.

Após sua mudança as “tribos” começaram a se dissiparem. Cada um foi procurando seu rumo. Foram, aos poucos, buscando suas independências, pois, não tinham mais aquela “baraúna” para lhes proteger e lhes amparar nos momentos difíceis.

E, assim, mais tempo adiante, ela se foi para o lugar ao qual, as grandes pessoas de bem migram para sempre: Junto de Deus!

Em sua homenagem, escrevi um verso em sextilha para relembrar da sua figura, de sua grandeza de mulher e das grandes lembranças que carrego de minha querida vó Nêga, nos dias de feira, dentro do meu peito!

 

A FEIRA DA MINHA VÓ NÊGA.

              (DONA NÊGA)

 

Minha feira de mangáio,

De tudo carrega um pouco:
Tem batata doce e açúcar,
Café e carne de porco.
Tem jaca, manga e banana,
Alcachofra e óleo de côco!

Tem à tripa e a sardinha,
Buchada e o sarapaté,
Algodão doce e pipoca,
Tem massa pra picolé,
Feijão verde e farinha,
Tem rosário de catolé!

Tem legumes variados,

Carne de bode e filé,
Perna de boi e chuchu,
Coentro, cebola e guiné,
Alho, tomate e alface,
Cuscuz e leite Itambé!

Tem cominho e colorau,

Macarrão, sal e arroz,
Gengibre e a batatinha,
Coração e cunhão de boi,
Torresmo e a melância,
E, a rabada do boi!

Tem a jaca mole e a dura,

Manga, banana e caju,

Tem uma rapadura molinha,

Raspa de queijo e angu

Tem o mel que cura tosse,

Chamado do uruçu!

E assim, vou carregando,

Minha feira de mangáio,
Arrumada com jeitinho,
Nas lacunas dum balaio
São lembranças que me vem
Dos tempos que não volta mais!

 

Patos, 08/09/2015.
Anchieta Guerra

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