(ao meu amigo poeta, jornalista e professor Edson de França)
Por trinta anos carreguei aquele saco: um embrulho de minha infância que precisava passar adiante, para que eu pudesse continuar presente. E todos os medos enfeitavam as paredes do caminho. A lembrança de uma época, atada por um cordão de estopa. Esperava, na lonjura das horas, o dia em que a sorte seria, enfim, constituída. Mas, não vinha o prometido. A cada toque, uma flor. E foram três, os botões de rosas.
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Pela estrada, deixava cair as reminiscências. E o conteúdo do pacote se esvaía, fraco de tessituras. Na verdade, era o esforço para fugir da obrigação. O que havia ali dentro, não se continha em si mesmo. Por que haveria de ser daquele jeito? Desafiamos o tempo para contar a história pelos olhos alheios. Não suportamos a autoralidade. Preferimos ser tronco - que desce o rio caudaloso sob uma determinação arbitrária; cujos obstáculos são próprios dos percursos. Poderíamos ser o fiel depositário de nossa decisões.
Ah! Escolhas, escolhas... À cada dia, mais distantes de mim.
Agora, o filho varão, parece estar pronto. Achou de ser o último da linhagem, justamente, o prometido. Ele veio, sem alarde. Não houve o aviso de trombetas. Nem do céu se abriram fachos de luzes. Por meio dos exercícios paternos, a esperança de que ali eu continuarei vivo.
Está na hora de abrir aquele saco e deixar que os fantasmas da infância possam assim povoar o mundo ignorando as dimensões.
E sob um tablado, perfilados, 22 botões de acrílico... - Esperavam o apito para entrar em campo. As traves não conservaram o filó virgem; muito embora, aqueles rasgos fossem testemunhas/dores das agruras de todos nós. A bola, novelo de linha, ao centro da terra. Um, posiciona-se numa extremidade; o outro, do lado oposto. Pai e filho duelando pelo direito de serem livres: a iniciação começava.
... E, dali em diante, os dois seguiriam suas vidas, separados; porém eternamente uno.
Misael Nóbrega - Professor e Jornalista