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João Pessoa, PB

Chinelos, flores e certeza...

Por: Redação Fonte: Zenilda Lua
11/08/2015 às 08h41

 

Meu pai agreste se foi bem cedo. Cativo do álcool abriu todas as torneiras do desafeto e nos deixou numa véspera de domingo ao entardecer.
Meu pai sonoro, provedor de versos curtos, soltava fogos de artifícios, era cantador e pescador de primeira. Tinha voz terna e um cheiro diferente que eu infante desconhecia a procedência. 
Quando mais tarde dando falta de ternura e da sua mão que nunca mais tocara a minha, entendi a rudeza da sua fala e passei a detestar aquele cheiro com a maior força que a verdade pode guardar.
Meu pai abortou as nossas passagens mais engraçadas. Proibiu flores e cantigas. Ficou sovina. Suspendeu sentimentos essenciais e por muitas vezes fez de sua presença um incômodo.
Estendíamos a fita de cor para refazer os laços que a bebida havia esgarçado, ele nunca aceitava. Fortalecendo na gente aquela dor amargosa e deselegante.
Não chorei a morte do meu pai. Suas escolhas renegaram minhas lágrimas, amor e fonte de ajuda. Após deixar seu corpo na lápide Dois,  do cemitério São Miguel, voltei para casa descoberta e forte.

Guardei seus chinelos e o lençol que cheirava cigarros. A rede de pesca, arreios e sela adornavam silenciosamente a sisudez daquela tarde.
Meus  irmãos e minha mãe choravam quando os abracei e saí indecifrável.
Hoje entendo que tudo aquilo foi um aprendizado necessário para fortalecer minhas intenções. 
O quanto à literatura foi importante naqueles tempos espinhosos de aconchego falho, liberdade negada, falta de despedida e bênçãos. Tudo aquilo promoveu em mim o desejo sóbrio de cuidar dos que me cercam. Percebi a família como base detentora de valores que regem nossa vida e história.
Pobre meu pai, sem convenção espiritual ou intelectual perdeu-se nas teias venosas da caminhada etílica sem nos dá chance de intervenção.

 

 

Ouvindo Chico Buarque numa dessas manhãs de domingo, lembrei-me dos olhos calmos que meu pai tinha e desprovida de dor chorei sozinha.

 

 

"Depois de te perder 
te encontro com certeza 
talvez num tempo de delicadeza 
onde não diremos nada
nada aconteceu 
apenas seguirei como 'encantada', ao lado teu"...
 
Zenilda Lua 

 

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