Certa vez, quando ainda trabalhava para o jornal da Paraíba, fiz uma reportagem sobre o cinema São Francisco. Era, talvez, a primeira de inúmeras especulações sobre o seu fechamento. À época, a matéria acabou tendo relativo destaque, afinal a chamada sétima arte estava sendo desprezada, por algum motivo.
Muitas foram as argumentações da matéria, a partir das entrevistas e pesquisas realizadas nos dias que antecederam a publicação. Tais como: violência; comodismo; falta de bom títulos; e principalmente, o surgimento dos vídeos cassetes (hoje, aparelhos de dvds e bluerays), para justificar o desmedido.
Anos depois de tudo consumado, atenho-me a foto tirada com a velha Zenit de guerra. O ângulo mostrava, num primeiro plano, o cadeado cerrando o portão principal; e, com o obturador e o diafragma, ajustados acertadamente, um efeito de profundidade, flagrava a expressão do ator Tom Hanks, - com o olhar de perplexidade, - no cartaz do filme: À Espera de um milagre, por acaso ao fundo.
Àquilo acabou sendo a passagem mais intrigante da história em que descrevera como testemunha ocular, e o mais difícil, não deixar que o texto fosse passionalmente contaminado pela angústia que estava sentindo naquele momento. Porém, nada comparado a notícia disposta no periódico, igual profecia; e que, indubitavelmente, iria se confirmar.
As novas salas de projeção, embora mais confortáveis, em nada se parecem com a grandiloquência de antigamente. Os cinemas eram catedrais de Áugures. Verdadeiros santuários de entretenimento e ópio. Talvez, quem sabe, não seja pela evocação do deífico que grupos religiosos se interessem em comprar as estruturas de concreto. Fortalecidas pelo tecido espiritual das gerações e, portanto, já santificadas, por assim dizer.
Voltando àquele lugar, confesso, tive um profundo aborrecimento, em ver que o edifício, sem mais nenhum cartaz convidativo, havia sido, totalmente, derribado. Era, enfim, a certeza de que uma época se perdera; um estado de espírito idem... Uma pessoa sem mais nada para lembrar.
Incalculáveis foram as vezes em que assisti a filmes no afamado Gigantão do prado. Nada será mencionado, ainda que de modo enumerativo, feito galanteria, aos diretores, roteiristas, atores, etc. mesmo entendendo que a atuação deles determinaram alguns de meus sonhos.
Já dissera, portanto, que houve uma morte viva: uma deslembrança na forma de um protesto silencioso - E não uma rendição. Era pretensão demasiada acreditar que aquelas cadeiras do cine São Francisco ficassem eternamente cativas em suas fileiras; e o quadrilátero um próprio espaço de mim. No entanto, deixo aquele recinto impregnado de meus suores, como pagamento pelos seus favores: um achaque que agora sinto no mais íntimo do meu viver.
O sol despenca miseravelmente no final da rua do Prado, em Patos, Paraíba, e doura a testeira do prédio-casa de Almir, que ali estivera por inúmeras películas e que fora também, abrigo de cinéfilos de todos os títulos.
Amém.
Misael Nóbrega