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DERRUBARAM O GIGANTE!

Por: Redação Fonte: Misal Nóbrega
06/08/2015 às 15h11
DERRUBARAM O GIGANTE!
Certa vez, quando ainda trabalhava para o jornal da Paraíba, fiz uma reportagem sobre o cinema São Francisco. Era, talvez, a primeira de inúmeras especulações sobre o seu fechamento. À época, a matéria acabou tendo relativo destaque, afinal a chamada sétima arte estava sendo desprezada, por algum motivo.

Muitas foram as argumentações da matéria, a partir das entrevistas e pesquisas realizadas nos dias que antecederam a publicação. Tais como: violência; comodismo; falta de bom títulos; e principalmente, o surgimento dos vídeos cassetes (hoje, aparelhos de dvd’s e blue’rays), para justificar o desmedido.

Anos depois de tudo consumado, atenho-me a foto tirada com a velha Zenit de guerra. O ângulo mostrava, num primeiro plano, o cadeado cerrando o portão principal; e, com o obturador e o diafragma, ajustados acertadamente, um efeito de profundidade, flagrava a expressão do ator Tom Hanks, - com o olhar de perplexidade, - no cartaz do filme: “À Espera de um milagre”, por acaso ao fundo.

Àquilo acabou sendo a passagem mais intrigante da história em que descrevera como testemunha ocular, e o mais difícil, não deixar que o texto fosse passionalmente contaminado pela angústia que estava sentindo naquele momento. Porém, nada comparado a notícia disposta no periódico, igual profecia; e que, indubitavelmente, iria se confirmar.

As novas salas de projeção, embora mais confortáveis, em nada se parecem com a grandiloquência de antigamente. Os cinemas eram catedrais de Áugures. Verdadeiros santuários de entretenimento e ópio. Talvez, quem sabe, não seja pela evocação do deífico que grupos religiosos se interessem em comprar as estruturas de concreto. – Fortalecidas pelo tecido espiritual das gerações e, portanto, já santificadas, por assim dizer.

Voltando àquele lugar, confesso, tive um profundo aborrecimento, em ver que o edifício, sem mais nenhum cartaz convidativo, havia sido, totalmente, derribado. Era, enfim, a certeza de que uma época se perdera; um estado de espírito idem... Uma pessoa sem mais nada para lembrar.

Incalculáveis foram as vezes em que assisti a filmes no afamado “Gigantão do prado”. Nada será mencionado, ainda que de modo enumerativo, feito galanteria, aos diretores, roteiristas, atores, etc. mesmo entendendo que a atuação deles determinaram alguns de meus sonhos.

Já dissera, portanto, que houve uma morte viva: uma deslembrança na forma de um protesto silencioso - E não uma rendição. Era pretensão demasiada acreditar que aquelas cadeiras do cine São Francisco ficassem eternamente cativas em suas fileiras; e o quadrilátero um próprio espaço de mim. No entanto, deixo aquele recinto impregnado de meus suores, como pagamento pelos seus favores: um achaque que agora sinto no mais íntimo do meu viver.  

O sol despenca miseravelmente no final da rua do Prado, em Patos, Paraíba, e doura a testeira do prédio-casa de Almir, que ali estivera por inúmeras películas e que fora também, abrigo de cinéfilos de todos os títulos.

Amém.
 
Misael Nóbrega 
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