O FILHO É O PIOR ARQUÉTIPO da genealogia humana. Quando apoucado, suga da mãe as energias da vida... E também a enfeia, a debilita e a deprime. Usa o choro como denúncia de maus-tratos. E não há afago que o acalente. O filho é a representação cênica dele mesmo. Dependurado nas tetas da aleitação, surrupia o seu sustento. Assim, dependente, habitua-se à chantagem, relegando a mãe à escrava de seus desejos famintos e às humilhantes sessões de higienes fecais. Espera, na comodidade dos panos, até que venham os primeiros passos; e, só depois, as primeiras palavras E o que deveriam ser desafios viram recompensa. O filho é transformado num boneco-fantoche. É quando os pais materializam os desejos frustrados de outrora: um tipo de compensação pelo que lhes foram negligenciados... - Mesmo que tivessem recebido o que mereciam. Assim, mal educadas, aquelas novas criaturinhas reclamam para si tudo o que veem: coisas que se quebram como os devaneios dessa mesma idade. Não sabem eles que estão ganhando, feito fiúza, as tristes lembranças dos progenitores. Logo chega a adolescência, sepultando uma infância de que nem se recordam. Para o filho, o que importa agora é se descobrir. A sua casa não é mais um porto-seguro. Então, ele se permite. E acredita, tão somente, na ilusão das cores. O mundo é o diabo. Os sacrifícios, as dores, a autoflagelação... estão disfarçados de prazer. - O filho é acometido de uma falsa alegria. O que apenas indica que ele está por conta própria. Estamos na fase da experimentação. E nada pode desviá-lo do risco. Não é a queda é o voo; mais do que se conhecer, testar os limites. E, quando acredita que já celebrou de tudo, as imagens vão se desintegrando. O tempo, então, lhe induz à seletividade; é quando edifica na liberdade aparente outra prisão; cujos tijolos são os seus dias... - E onde estão agrilhoados os sonhos (e esses são também os seus pecados), que os leva à forca de cordões umbilicais. Pai e mãe já são estorvos. Não dá para suportar a ideia da retribuição. Eu não pedi pra nascer... Então, o filho trama uma forma de encostá-los; bem afastados do sentimento, - Que já se mostra racional. É quando se rompe a efígie de filho; e o espelho lhe mostra a face do pai. À noite, vem o remorso... - Mas, tudo some com a aurora prima. Assim, ele enterra os únicos que lhe quiseram bem... - E que nunca exigiram dele outra coisa que não fosse o perdão.
Misael Nóbrega