O QUE PENSA AQUELE velho depois de ter bebido (aos tragos) a própria vida? Sentado em sua pedra filosofal assistindo o tempo tirar lascas de seus últimos momentos. Estrábico e descrente repousa às costas no banco frio. Não há companhia ao seu lado. Aliás, há muito que ninguém lhe nota. Como pesar os anos? Períodos subtraídos por dissabores. Na avenida, que se segue doravante... - A contramão da história. Nem a memória lhe é mais lícita. De cenário, uma igreja ao fundo, a catedral de sempre: mansão de seus valores espirituais e devoção de todos os seus. O olhar contempla a ausência. Não há nada que lhe tire do sério. Alheio a modernidade, não considera as coisas de então. O que verdadeiramente é evolução? Simplifiquemos: quase tudo está sendo reinventado. Aquele que degustou todas as épocas é de outra encarnação. Os arranjos o acodem, mas ele parece que sossega no colo da idade. Não são sonhos. Talvez, aves agourentas a lhe sobrevoarem a cabeça. As indisposições tornaram-se íntimas e já não o aborrecem mais. Os ecos da noite se ajuntam numa confluência de exageros. Todavia, aquela atividade ao derredor é para testar-lhe a paciência. Gracejos juvenis rasgam o céu de brigadeiro. O velho ignora a mocidade, mas não há desdém apenas leveza. E o que ele pensa, talvez só importe a ele mesmo. O linho branco é a vestimenta presente. Artefato talhado de caimento impecável. Herança de um alfaiate, já falecido. E por falecimento, uma dúzia de amores. Como dono da vida, resolve sair. Porém, aonde vai? Nos passos trôpegos, sustenta-se um homem que um dia fora deste tempo. Quem sabe, tenha escolhido voltar para dentro de sí mesmo. Segue por ali um abecedário da vida, tal qual um livro aberto com todas as letras caindo... - E, sem querer, um mundo inteiro lhe abrindo caminho.
Misael Nóbrega