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Entre o Mar e a Tardezinha

Por: Redação Fonte: Zenilda Lua
22/07/2015 às 09h52

Disse sim para o que a razão recomenda numa tarde de sábado quando ela me apresentou o desejo de viajar à África do Sul no intercâmbio escolar.

 Meu coração latejou inquieto escorando-se numa sozinhez iminente. Há quatro meses o câncer havia levado o pai dela e a gente ainda vivia o processo dolorido da ausência, do choro no meio da noite e de sentir o cheiro dele em todos os cantos da casa. Depositei meu olhar no portal da cozinha enquanto ela lavava a louça e falava do Cabo das Tormentas e da janelinha por onde Mandela via o por do sol quando ficou preso na ilha.

Permaneci avulsa cobiçando a plenitude dos felizes. Pensando num jeito de arranjar forças para não morrer de chorar no dia que ela viajasse. Na semana seguinte fui buscar compreensão para a providência dos detalhes. Esmiucei tudo. Tintin-por-tintin. Maternagem e cautela. Consulta financeira, médica, odontológica e outros aportes geradores de cuidados.

Que lindo aquele riso solto dela. Aquela alegriazinha lagrimada de vagalume que brilha mesmo quando a  noite é seca. “O tempo pode ser de aço, filha, mas pontas de sublimes ainda enfeitam nossa janela”. Afirmei consumada e fui ajuda-la com as roupas de inverno.

Fez frio no dia do embarque e um dilúvio represou meus olhos. Almoçamos juntas sem palavras para evitar outras lágrimas. Mais tarde enlaçadas num abraço de amor trocamos promessa de cuidados diários.

“Chorar faz bem. Feiura é não saber usar Skype”. Era uma provocação amorosa. Tenho pouca habilidade com tecnologias e estava aprendendo a utilizar a ferramenta que ela instalou a pouco no aparelho celular recém-comprado.

A internet facilitou tudo e eu cavouquei mais trabalho para espantar a solidão dos dias calmos. Os amigos vieram feitos sol, feito amor divino. Brindaram comigo o eterno e o célere, a foto e o poema, o soneto e o salmo.

Água com flor de hortelã, bolo prestígio, canja de galinha, café amargo com manteiga da terra no pão bem tostadinho. Feijoada, licor de araçá e uma antiga cantiga tocada por um desses anjos líricos no meio da sala “somos todos irmãos da lua moramos na mesma rua”.

 Deus é bom. A saudade é que é danada e vive a traquejar minha alma. Todo dia no meio da tarde nos falamos via Skype. Meu coração se apronta todo para espera-la. Fica corado, florido por gratidão e milagres. Num rebuliço santo se repete animado: Brisa, eu te amo!

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