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RONALDO: JÁ SE FORAM TRES ANOS (HOMENAGEM)

Por: Redação Fonte: Anchieta Guerra
06/07/2015 às 13h07

 

Lembro-me muito bem no tempo de criança, lá no bairro da Palmeira em Campina Grande, quando os comícios eram realizados em frente a Padaria, na Rua 15 de novembro, dos discursos do Ex- Governador e Senador Ronaldo da Cunha lima.

Na época, existiam dois partidos: MDB e ARENA, em razão de imposição da DITADURA  MILITAR, que se implantou no  Brasil.

A oratória, prosada em versos e poesia, juntava-se à beleza facial que a Natureza o contemplara. Diante desses valores, agregavam-se outros que o diferenciava dos demais políticos da época, o tornando, politicamente, para o pleito de prefeito em 1968, em Campina Grande, imbatível!  O que foi provado, no resultado do que o consagrou como eleito Prefeito, derrotando: Vital do Rego, Severino Cabral e Dr. Stênio lopes., 

Porém, todo aquele que fosse agraciado pelo povo naquele período de retrocesso político no Brasil, passava a ser mira dos holofotes da DITADURA. Foi exatamente o que aconteceu com Ronaldo, que, logo após ser eleito prefeito, cassaram seus direitos políticos.  

Pude vivenciar de perto alguns momentos desse tribuno, poeta e político, que fez com que Campina Grande e toda a Paraíba fossem vistas e representadas na mídia nacional, através da Televisão, quando respondeu sobre a vida de Augusto dos Anjos, no programa "Show sem Limite", apresentado por J. Silvestre (in-memori) e posteriormente, pelo ator e apresentador: Luiz Armando Queiroz( in-memori).
 
Mais adiante, por ironia do destino, fui agraciado, quando resolvi voltar a estudar na FIP, em Patos, pela presença de Ronaldo, na aula inaugural da turma de Direito do período: 2006.1. O que para todos nós, iniciantes como acadêmicos de Direito, foi uma grande honra!

Como campinense e paraibano que sou, deixo nas minhas lembranças a imagem saudosa do grande poeta, político e tribuno, Ronaldo Cunha Lima!

 

 


Eternas Saudades....

 

Em sua homenagem, reedito um texto que escrevi no meu blog, em 07 de Julho de 2012, quando do seu falecimento, onde mostro à riqueza do poema de Ronaldo, em um dos seus poemas, dentre tantos outros que escreveu.

Na Paraíba, alguns elementos que faziam uma serena, foram presos. Embora liberados no dia seguinte, o violão ficou apreendido. Tomando conhecimento do acontecido, o famoso poeta e atual senador Ronaldo Cunha Lima, enviou uma petição ao Juiz da Comarca, em versos, solicitando a liberação do instrumento musical.

RONALDO CUNHA LIMA ( Habeas Pinho )

Senhor Juiz,

Roberto Pessoa de Sousa

 

O instrumento do "crime" que se arrola
Nesse processo de contravenção
Não é faca, revolver ou pistola,            
Simplesmente, Doutor, é um violão.

Um violão, doutor, que em verdade
Não feriu nem matou um cidadão
Feriu, sim, mas a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade
O crime a ele nunca se mistura
Entre ambos inexiste afinidade.

O violão é próprio dos cantores
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam mágoas que povoam a vida
E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é canção
É sentimento, é vida, é alegria
É pureza e é néctar que extasia
É adorno espiritual do coração.

 

 

Seu viver, como o nosso, é transitório.
Mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, Doutor, que suave lenitivo
Para a alma da noite em solidão,
Não se adapta, jamais, em um arquivo
Sem gemer sua prima e seu bordão

Mande entregá-lo, pelo amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno acoite
De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, Doutor Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?
 
Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado
Derramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia
(a consciência assim nos insinua)
Não sufoque o cantar que vem da rua,
Que vem da noite para saudar o dia.

 

 

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento
Juntada desta aos autos nós pedimos
E pedimos, enfim, deferimento.

 

O juiz Roberto Pessoa de Sousa, por sua vez, despachou utilizando a mesma linguagem do poeta Ronaldo Cunha Lima: o verso popular.

 

Recebo a petição escrita em verso
E, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,
É desumana e vil destruição
De tudo que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte à rua, em vida transviada,
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de luz, plena madrugada,
Venha tocar à porta do Juiz.

 

 


Essa poesia, no meu entender, transpira à riqueza e a profunda
sensibilidade do poeta Ronaldo Cunha Lima, bem como,  a sensível
compreensão e o discernimento do Juiz,  Roberto Pessoa de Sousa.

 

 

Parabéns, aos dois!

Patos, 12/06/2012
Anchieta Guerra

 

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