Recebi a promessa de amor completo quando uma centelha de vida da mais alta leveza e doçura alojou-se em mim.
Eu que mais parecia uma vassoura na chuva, um graveto pendendo seco no estalo do tempo, passei a entender a valia do sagrado que Deus estendia-me com as duas mãos.
Comprei vestidinhos bordados, sapatilhazinhas, bonecas de retalho, presilhas douradas pra cabelo liso.
Escolhi paninhos cheirosos para a chegada dela.
E ela chegou numa esperada manhã de dezembro em meio à declamação e improviso de versinhos simples, num parto normal de apoucada dor.
Segurei-a no colo sem qualquer talento para explicações. Estava certa que todas as dúvidas relacionadas ao amor desapareceriam pela infinita luz daquele olhar moreno bem puxado para o pai.
Foi a partir daquele momento que minha vida passou a ser um carrossel luminoso de acontecimento feliz.
Ela deixou tudo muito mais ilustrado com sua cor e cheiro.
Abonou minha falta de traquejo para certos ritos, perdoou minhas ausências, encheu-me de esperança com desenhos e dizeres de amor.
Brincávamos de correr pelas viseiras da luz, de escutar o assobio das árvores, de acalmar o rio, de tanger borboletas, de plantar tomates, adivinhar canções e contar estrelas.
De mãos dadas visitamos catedrais, templos e casinhas tristes nos fundões dos brejos.
Ela me faz compreender a importância de um vaso sem flor e de um chão vazio. Fez-me prosperar quando o tempo era de escassez e dor.
Ainda sofre quando proíbem as auroras.
É de bondade no estado genuíno das coisas.
Estendo a minha manta preferida para ela sentar com os amigos no bosque, carrego seu violão e a capa de chuva, seguro o pratinho com tinta para ela pintar o rosto com a cor de tristeza pelas injustiças dos avaros e levo água na garrafinha azul se acaso a tarde seca, lhe trouxer mais sede.
Sou planta cativa dos teus sonhos minha Filha!
A tua canção envolve todos os meus ramos. Torna-os festivos para te esperar.
E eu te esperarei sempre. Na posição materna de paciência e agrado.
Com moderação já sofro pela possibilidade da tua ausência em minha vida.
Sua presença inibe minha ruindade.Reintegra minha essência, salva a poesia que às vezes julgo esvaída do meu coração, cingido pela saudade.
Levo-a comigo por todos os meus alqueires, alarde, silêncio e roseiral.
Quando me perguntam quem sou apresento-me sem titubeios, feliz e completa: - Sou a mãe de Brisa!
Todas as portas se abrem e até o vento dá de sorrir...