Houve um tempo em que as espinhas no rosto convocavam-me as inquietações terrenas e sem ânsia de escapar eu estragava os olhos esperando o amadurecer dos cajus.
Ao som do leite e veludo o avô materno nos permitia entusiasmo e ensinamentos. Não tolerava desperdiço de água nem gaiola com passarinhos. Dizia que 'os pássaros careciam ficar soltos para envaidecer as árvores'.
Naquele tempo tínhamos ao nosso alcance o maior pomar do mundo e o lajedo mais claro e a vazante mais próxima e a horta mais de perfume que eu me lembre.
O cajueiro ficava na beiradinha do riacho ao lado dos pés de manga, goiabeiras e pinha. Entre a carnaubeira e o pé de oiticica.
A porteira não tinha cadeado e os pés de pinhão roxo arvorava a parte baixa do terreiro.
Não havia vantagens nem moedas de alta valia, mas as bacias de frutas estavam sempre cheias e dando cheiros. Tudo era benção; bença mãe, bença pai, bença vovô, bença vovó. Éramos abençoados enquanto o amendoinzal crescia rasteiro em meio aos coqueiros impávidos, laranjinhas do mato e pés de limão-cravo.
Tinha também os pés de cana-de-açúcar, bananas, mamoeiro, seriguela (docíssima) e a cajaraneira florindo na divisa da cerca de tia Anália.
O chão parecia um jardim cricrilado de grilos e violetinhas selvagens.
Erva-moura esparramava-se imitando os pés de melancia e a flor de jerimum. Os pimentões vermelhos nasciam tão ligeiros, mas com a mudez dos dias iam ganhando fraqueza até caírem no capim.
Todas as férias os primos iam para o sítio e juntos pleiteávamos o paraíso. Éramos pacíficos e repartíamos cada gominho de delícia, hortaliça e favos de mel, broinha de erva-doce e oreia de pau com canela que a nossa Tia Luísa fazia além dos doces-de-leite e pamonha à vontade.
Somente os cajus se protelavam no amadurecer de sua fonte e nós permanecíamos com olhos fincados nos seus códigos sem possuirmos a chave que amarela o fruto.
Convertidos e esperançosos ficávamos a expiar a arvore frondosa como se fosse uma estrela intocável e cheirosa circundada de abelhinhas sonoras.
Outro dia fui à feira comprar alecrim e ao sentir o cheiro dos cajus esqueci minhas urgências. Era como se o amor de outrora me acarinhasse naquela lembrança solitária. Comprei o alecrim, algumas frutas da época e uma baciazinha de caju. Confiante e satisfeita atravessei a avenida pensando sem segredo: O que faz as paixões prevalecerem é também a ação de conservar os cheiros.
Cheiros de ternura antiga, em todos.