Sou a primeira de uma prole de seis. Molecota de tudo dava de botar reparo na mãe. Na encurteza dos tempos aparecia a criatura barriguda. Umbigão sobrepujando na encosta da blusa de malha listrada.
Decretada a feita eu tinia de raiva. Permitia-me silêncio de morte por vários dias sem a menor paciência para aturar outra vez aqueles enjoos que ela sentia até pelo cheiro de coalhada e principalmente pela certeza que novamente eu seria babá sem remuneração ou contrato prévio.
Nascia o rebento e lá ia eu magricela no amiudar das horas cuidar da pequerruchada. Acordar bem cedo para lavação das fraldas de pano. Quebrar a frieza da água para banhozinhos amornados na bacia branca de ágata.
Quando se irritavam e valiam-se de choro eu dava de imitar os piados da passarinhada, inventava cantigas e toadas para distrair aqueles tiquinhos de gente agalegados com olhos puxados para o mel mais claro e cabelos amarelinhos feitos cor de milho novo.
Fazia gosto ver a robustez das bochechas e a brancura dos bumbuzinhos cheios de talco barato que eu palmava devagarinho levantando suspeita de infinito amor.
- Cadê a broinha que tava aqui? - perguntava cocegando as mãozinhas rechonchudas que agarravam meus cabelos, encolhendo o corpinho na maior risada. -
- O gato comeu foi?
- E cadê o gato?
- Saiu por aqui, passou por aqui, descansou aqui e...
- Achei o gato!
Eles gargalhavam e eu aproveitava para estender a porção alimentar: mingau de araruta em colheradinhas.
Comiam tudo até arrotar num suspiro doce.
Eles eram meu recesso, minha aflição nascente, minha privação de arbítrio, meus desvios de infância e brincadeiras, mas especialmente eram meus motivos de bem dizer a vida. Minha roda de conversa, minha música e terapia. Eram meus brinquedos, minha testa suada, meu brocal de ouro, meus cestos cheios de flores na estação da emoção primeira.
Nunca ficavam doentes. Nem de catapora ou sarampo. Virose, bronquite, asma, falta de vacinas, nada. Graças a Deus! Febre só de vez em quando na floração dos dentes.
Meus irmãos sempre foram meus amores, alegria, devoção e garantia. E ainda são. São meus lumes mais sublimes, meu norte enfeitado, minha lente de alcance, meu religar com o passado, "meus Querubins de procissão no interior".
No último final de semana recebi a visita dos cunhados e das irmãs. Que delícia de encontro. Quando estamos juntos tudo que é feito para doer se dissolve.
Voltamos ao tempo dos recreios, das intercorrências infanto juvenil, dos encantamentos, privações e arremedos. No silêncio dos alegres escutamos as músicas de infância e sem atestarmos a corrida acentuada do tempo nos revalidamos sem crises de idade.
Meus irmãos são o ponto mais amplo de minha riqueza. Certeza amorosa de fiel aceno. Quando preciso eles correm em meu socorro. Se me chamam largo tudo e parto no clarinar dos galos.
Atesto minha presença com abraços, palavras de incentivos e cheiros. Cada um sabe o que o outro está vivendo e vivemos felizes na meiga oferenda da simplicidade, lonjura e respeito.
Não existe tristeza repisada nem segredos.
Eles sabem que a qualquer momento no oitão de seus cansaços, "se quiser, podem fazer um travesseiro dos meus braços".