Morava num apartamento de uma cidade convencional. Não costumava sair nem que fosse para espiar a vida... No entanto, fantasiava muito. Porém, não chegamos a ir muito longe com as ilusões. Muito menos se estivermos presos a uma padieira do guarda-roupa - Vestidos num terno azul, comprado numa liquidação.
Não obstante, imaginava um bom motivo para descer dali. E, mesmo cheirando a naftalina, imitar as pessoas da terra, com suas expressões carrancudas. Mas, o que abrandava meu coração era que não havia convites significativos. É fácil se esconder; basta apenas não mais querer viver. Podia envelhecer naquele terno azul... - que ninguém iria se importar. Mesmo assim, não elejo culpados.
Na última vez que saímos (eu e o meu terno azul) fomos a um passeio. Na realidade, não era um percurso ordinário: dezenas de pessoas seguiam um enterro - Em direção ao ponto onde tudo termina... - como acabamos sem dignidade, pensei. E velas; e cânticos; e orações terminavam por alinhavar o panorama.
Segui de volta pelas mesmas ruas que, há pouco, levaram-me àquele lugar. Era como se fosse a minha própria caminhada fúnebre - Só que ao contrário. As mãos atadas às costas; um leve sorriso no rosto; o queixo colado ao peito... Zombei da vida. Queria gargalhar na cara dela, mesmo com a afoiteza da demência. Mas, não ia adiantar grande coisa. Ganharia, apenas, uma oponente. E ter a vida como inimiga é um mau negócio. Ela é astuciosa. Mas, não posso negar que é colorida; tampouco que é mágica; menos, ainda, que é transitória. E, se juntarmos os trapos, temos uma borboleta.
O dia abria-se num sol de verão. Reparei que o meu terno azul de tabuleiro, continuava insensível. Mas, sentir compaixão de mim seria muito cruento. Então, fiz disso, também, a minha preferência, para não ter que idear. Resignei-me, em solidariedade... - Assim como o meu terno azul.
Professor e Jornalista