Com um sol a pino que faz suor escorrer melando a roupa logo nas primeiras horas do domingo caminhei pela Avenida Cidade Jardim pensando na intensidade de pavor e violência que o mundo todo tem enfrentado neste primeiro mês de 2015. As intolerâncias religiosas, o desrespeito às praticas e preferências civis de todo o mundo, sequestro cometido pelo Boko Haram no Nordeste da Nigéria, assassinatos na redação da revista Cherlie Hebdo em Paris e outros acontecimentos negativos de proporção alarmante. Fiquei ali na quietude de uma tristeza identificável refletindo sobre a lei interna que me diferencia e me faz igual a várias pessoas que sentem necessidade de expressarem seus medos.
Que o silêncio bondoso da tolerância consiga escutar nossos corações confessos.
Andamos sentindo vários medos ultimamente.
Cada dia fica mais clara e próxima a onda de ódio que domina as criaturas. Nesse século Vinte e Um tem se avolumado de tal forma que só pela misericórdia de Deus!
E não se trata de ódio só pela questão religiosa, não. Em todas as classes, grupos e esquinas há um vivente pronto para atirar, atacar a natureza e destruir seus elementos, maltratar o próximo, atingir com palavras, pauladas cortantes e pedras que machucam.
Cada vez mais cedo o empolgamento social que incita à ira se levanta. Aprendo com algumas situações que tragédias também nascem das escolhas que fazemos. Por isso escolhi ser mais cuidadosa. Não fico mais saracoteando por claridade estranha. Não revido aos xingamentos dos motoristas nervosinhos que só andam a cem quilômetros por hora nas vias onde a velocidade permitida é sessenta. Não peço mais para a vizinha parar de lavar a calçada com água potável. Nem brigo mais com o infeliz que mantém passarinhos presos em gaiolas camufladas.
Na última eleição não declarei minha preferência de voto. Desafiei o tempo. Guardei segredo bem lacrado no pote de biscoito. Enganei a cronologia. Nenhum assobio foi soprado por mim em favor dos candidatos de minha preferência.
Lembro que na véspera do pleito fui fazer as unhas no salão de costume. Bárbara é uma das manicures que eu sempre prefiro. Educada, sorridente e tranquila feito verso floral. Nunca demasiou na lixação nem arranca bife. Não é consumista nem questiona meus hábitos de camponesa. Naquele dia ela me atendeu sorridente, mas taxativa foi logo dizendo: "Você está proibida de escolher esmalte de cor vermelha aqui hoje, viu"? Olhei em minha volta. O salão estava cheio e todas as clientes tinham o mesmo olhar condizentes: "Fora, Dilma"!
Fiz silêncio de morte. Escolhi a mesma cor de sempre; branco-renda e guardei aquele sentimento amorfo que se debatia em mim.
Depois da reeleição acessei o face e lá estava as postagens daquelas moças de Minas Gerais tomadas pelo ódio escreveram que se encontrassem "um paraíba, matava".
Creindeuspai! Quero viver mais um bocadinho, quero ver minha filha emancipada.
Que Deus nos livre desses desafios. Dessas intolerâncias rebuscadas nos escombros da violência. Desses preconceitos moldados por feixes de ignorância e vazios.
Persigamos a serenidade e o afeto. Ainda que o universo inteiro se contorça de lutas, rixas e discórdias. Ainda que a ruindade se disfarce de bons modos e o ódio se camufle de mansidão para sussurrar orações amorosas.