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VOCÊ PODERIA TER ELEGIDO A DECÊNCIA – por Misael Nóbrega de Sousa

Por: Redação Fonte: Misael Nóbrega
19/01/2015 às 22h59
Tudo que eu toco vira traição. Quantos, de nós, temos a dignidade de Antígona? Não preciso me tornar àquilo que está escrito; ou usurpar, do outro, vestígios de virtudes. A nossa formação vem de antes do antes. Mas, nada impede de elegermos a decência, como um atributo-valor. 

Se eu não tivesse conhecido você, fatalmente seria outra pessoa. Quem sabe mais forte... Pode ser. Só não seria o eu-agora. Grata oportunidade que veio de seus lábios. E eu me fiz, por sua confiança, feito escultura de cuspe. A cada lição a calcificação e o desprendimento – Mas, nunca fui asa. Imaginei-me liberto; e apenas isso foi suficiente para pular no vazio. Não ousadia, medo. 

E para não continuar orbitando usei o seu pescoço em contrapeso. E eu lhe roubei a costela. Pé, após, pé... Imitei os seus passos. Da sua imagem, a semelhança. E tomei aos tragos, tudo que era seu. Saboreei o banquete, e só depois vi que eu era o prato principal. 

Ainda sou uma sombra. Essa é a aflição que carrego, em penitência. Assim como eles, também não consegui aniquilar o conceito. E todos os olhares parecem de reprovação, bem mais que as 39 chicotadas de Cristo. Fel, cravo, crucificação, oração. 

Vivo chefiado pelo meu erro. Escravo dos favores. Não grito! Não sinto dor ou apreço. Pareço zumbi. Diminuo-me ao final do expediente/dia. Não me encontro mais comigo mesmo. É como se, vergonhosamente, eu vivesse fugindo de mim. 

As mãos de tesoura, uma língua de trapos, o andar coxo, o corpo espigão, vômito de aguardente... Imagens reproduzidas nas nuvens de toda e qualquer infância; e eu só enxergava bichinhos fofos e inofensivos. O portal do inferno é uma abstração. Ciúmes ou inveja? Perdoe-me! Em cada punhalada, o rosto de Brutus... Foi maldade! 

O homem que não se vende pode vir a ter um poder inglório. Mas, o mundo que ele carrega em si mesmo, tem a leveza da consciência. Mesmo não se tratando de uma escolha, você poderia ter elegido mesmo a decência, visto que, nem o cálice da cicuta lhe seria libertação. Valei-me Deus! Valei-me Deus! 

"Deixa-me sofrer o tremendo castigo de minha temeridade! Por muito que eu sofra, nunca serei privada de uma bela morte."

Professor e Jornalista
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