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O Primeiro Ano de minha Vida; por Zenilda Lua

Por: Redação Fonte: Zenilda Lua
05/01/2015 às 17h35
O Primeiro Ano de minha Vida; por Zenilda Lua
Zenilda Lua

Quando o amigo e poeta Misael convidou-me para fazer parte da equipe que escreve neste espaço, esbarrei no desconforto dos inicios. No vislumbrar das criticas, na secura dos acasos, no azul dormente das coisas consumadas e na plenitude da distância eterna.

Ponderei. Deus sabe o quanto sou apoucada de valias e como ainda careço de melhoras.  Contudo rebusquei no efetivo de minhas emoções o que de mais puro um coração pode guardar e descobri que existia uma porcentagem de motivos envergados para eu dizer sim.

Quando troquei as ruas ensolaradas de minha Patos e a estradinha empoeirada do meu Sitio Trincheira pelas avenidas neblinadas de São José dos Campos, a causa especifica dessa troca atende por amor. Amor atípico e inexplicável. Engraçado e pacifico. Generoso e simples. Desses que assiste ao circo todo molambento e poupa nas cuias a farinha da última safra, mas sob a luz da primeira promessa nos faz viver num tiquinho de céu em plena terra.

Por mais de vinte anos vivi nesse suave cotidiano esvaziado de ciúmes, discórdias e grosseria. Os defeitos existiam, mas sempre arranjávamos um jeito de abafá-los com declarações de confiança, ternura e alegria.

Ele, eu, a filha, bons amigos e planos. Bons empregos e sonhos. Dignidade, fé, respeito e poesia. A cada dois anos voltávamos a cidade de Patos. Visitávamos o sítio. Na floração dos flamboyanzeiros repetia-me feito cantiga aluada: Bença, Mãe! Bença, Tias! Era a contenteza genuína das férias, a disputa com os irmãos pelo balançar das redes estendidas no alpendre da infância. O arroz do almoço bem cozinhado no caldo da galinha caipira, batata docinha e as sonoras gargalhadas ao relembrarmos as ocorrências da meninice.

Não obstante a soltura dos risos e ao gracejo dos encontros Deus requereu sua parte. Imprimiu em minha alma a força misteriosa dos limites. Fez-me conhecer a finitude por meio de um câncer raro e agressivo. Suspirei de fraqueza pela falta amorosa daquela permanência. Virei sino choroso a pingar igual bica rala na altura da torre.

Golpeada por uma morte anunciada sem permissão para despedida aprendi que em alguns momentos preciso dizer mais "sim" do que  "aguarde". Aprendi com Cristo a suportar as fisgadas doloridas de uma ausência diária e descobri que há um Colecionador de Lágrimas que a todos consola. Registra em sua caderneta cada borrifo de nossas saudades e dores, e nos suaviza nas tristezas dando força para continuarmos levantando a bandeira da amizade, da gratidão, alegria e principalmente do Amor.

Já não fico destampando a toda hora o frasco da loção pós-barba, cheirando o desodorante nem o sabonete que ele usava. Não mexo mais com tanta frequência nas camisas do armário. Sei que em  breve as golas também não terão mais o cheiro dele.

Neste  ano que será o primeiro sem o amor de minha vida, aos poucos vou descobrindo que posso habitar num lugar onde as cores da alegria ainda prevalecem. Aprendo com a saudade dele que "nenhuma dor chega até nós sem que antes já não tivesse atingido primeiro o coração do nosso Deus".

Continuarei a lançar as redes para captar as ternuras que se abrem sem economia. Continuarei levando-o comigo. Será sempre meu poema cativado. Tatuagem sagrada feita pra durar.

Feliz 2015 para Todos.

Que possamos sempre despertar e abrir a janela em tempo de ouvir e de entender estrelas...

 

*Zenilda Lua é Assistente Social, pesquisa a literatura regional, admira a exatidão do céu e cuida da horta.

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