Não se trata de uma mensagem de otimismo, mas de uma carta de amor. Assim, nunca é demais provocar: - Por que nos acostumamos à hipocrisia? Respondo: porque somos falíveis.
Encontro em: Humano, Demasiado Humano, de Nietzsche:
Pandora trouxe o vaso e o abriu. Então, dele saíram voando todos os males. Um único mal não tinha ainda escapado. Então, Pandora, seguindo a vontade de Zeus, fechou a tampa e ele ficou lá dentro. O homem tem para sempre o vaso da felicidade e pensa que o que está dentro dele é um maravilhoso tesouro, pois não sabe que esse vaso, trazido por Pandora, é o vaso dos males e toma o que ficou dentro como a maior das felicidades A esperança. Zeus queria, com efeito, que os homens continuassem a se deixar torturar sempre de novo. Na verdade, a esperança é o pior dos males, pois prolonga o tormento dos homens.
Aproveitamos as datas religiosas para pedirmos algo, em ação de graças. Mesmo que o resultado apareça inábil, imaginamos que as cerimônias de fé sejam mais alentadoras. Portanto, ilusoriamente, renovamo-nos, a cada ano. A superstição parece ser um ritual necessário à vida libertina, cujo costume é tão forte quanto a razão, mesmo em dias de hoje, bem afastados das fabulosas histórias dos deuses, semideuses e heróis da antiguidade greco-romana.
Assim não da para contrariar Nietzsche, pois a vida é, senão, um definhamento de nós mesmos. Disse e reafirmo: a minha pretensão é apenas fazer com que repensemos o nosso modo de ser e agir E que os vícios e erros não se contraponham às virtudes. E se assim o for que tenham a nossa personificação. Não indulto o inocente.
O que dizer do respeito?
Acredito que o respeito entre os homens é dissimulado E tem como premissa o medo Pelo que se apresenta inusitado. Quando nos mostramos, a relação tende a se banalizar. E nos aprazemos com a derrocada alheia... - Como num castelo de cartas. Consideramos mais sensato a aniquilação do outro pelo outro. Desta feita não há porque desembainharmos a faca, nem tampouco lavarmos as mãos... Todavia não precisamos mais ser quem não somos. E usamos como desculpa intima a competição que existe desde que o mundo é mundo, porém, não precisamos ser cruéis.
Nietzsche diz que homens cruéis são homens atrasados.
Falo agora da vaidade. Mathias Ayres, em: Reflexões sobre a vaidade dos homens, conta que quase tudo que a vaidade estima é vão: Sendo o termo da vida limitado, não tem limite a nossa vaidade: porque dura mais do que nós mesmos e se introduz nos aparatos últimos da morte. Quer maior prova do que a fábrica de um elevado mausoléu? No silêncio de uma urna depositam os homens as suas memórias, para com a fé dos mármores fazerem seus nomes imortais.
Nós, humanos, não nos acostumamos à perda. O máximo, que consideramos, é uma (imperceptível) troca de pele. Temos que viver nos enganando mesmo que no post mortem - Como exercício de bem querença. Uma dádiva atroz essa de suportar a nós mesmos. A cada evento novo pedimos inconteste algo novo, mesmo sabendo que não há muitas escolhas. Um despautério! Só para irritar: vivemos de chacinar essa vidinha de mentirinha... Rezando pelo assentimento daquilo que é divino.
Quão bom seria se as coisas tivessem a medida certa: a hipocrisia, a esperança, o respeito, a vaidade,... E só o amor pudesse transbordar. E que a hipocrisia fosse amor; e que a esperança fosse amor; e que o respeito fosse amor; e que a vaidade fosse amor. Reflitamos: Onde está a honra e glória dessa humanidade? Arrisco: no amor.
Finalizo em Nietzsche: O amor não reconhece nenhum poder, nada que separe, distinga, estabeleça superioridade e inferioridade de classe.
A propósito: - Você fez alguém feliz em 2014?