Comunidades da zona rural, principalmente do Semiárido paraibano, são as que mais sofrem com a escassez dos recursos hídricos. Para combater os efeitos da longa estiagem, projetos de captação, armazenamento, distribuição e reaproveitamento da água são desenvolvidos por universidades, institutos e cooperativas, para melhorar a qualidade de vida da população que convive com a seca.
A realidade de adaptação às condições climáticas é contada pelo presidente da Cooperativa Rural do Assentamento Venâncio Tomé de Araújo (Coravta), Geneton de Luna, que vive há 16 anos na comunidade rural na região de Campina Grande. Eu moro aqui desde 1998, na época ainda não existia o assentamento. Deste tempo para cá, enfrentamos duros períodos de seca, mas sempre buscamos um meio de enfrentar as dificuldades, comenta.
Geneton de Luna disse que o abastecimento de água na localidade foi, durante muito tempo, de um pequeno açude que existe na comunidade rural, localizada a 1km de distância da maioria das casas. O assentamento foi criado em 2000 e na época as famílias tinham como fonte para o consumo de água apenas o açude. Depois, foram construídas cisternas, disse. O assentamento conta atualmente com 18 cisternas que beneficiam cerca de 42 famílias.
Em Campina Grande, a Cooperativa de Trabalho Múltiplo e Apoio às Organizações de Autopromoção (Coonap), instituição responsável pelos trabalhos de assistência técnica nos assentamentos rurais, faz atualmente o trabalho de recuperação das cisternas, ao tempo em que orienta as famílias sobre o consumo adequado da água.
O engenheiro agrícola José Diniz, que atua na Coonap, explicou que não basta ter espaços para armazenar a água, é preciso também cuidar da condição do armazenamento e melhorar o seu uso no dia a dia. A cisterna ainda é considerada hoje um dos mais eficazes meios para o armazenamento de água para utilização durante o período da seca. A perfuração de poços, construção de reservatórios também são importantes, entretanto, nem sempre é possível garantir que a água do solo é própria para beber, o que não garante neste caso o consumo, conclui.
Já no Assentamento Vitória, na zona rural de Campina Grande, o Instituto Nacional do Semiárido (Insa) iniciou este ano a primeira etapa de implantação da Unidade Demonstrativa de Pesquisa do Projeto Águas, que estuda tecnologias para captação e reúso de água de chuva. Nessa primeira fase foi instalado no local um sistema de captação, armazenamento, tratamento e bombeamento dessa água, beneficiando 38 famílias da região.
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A captação da água para o armazenamento em cisternas é feito durante o período chuvoso através da instalação de um sistema de coleta colocado no telhado da casa, que é direcionado por tubos até o local de destino.
Cada cisterna tem a capacidade média de 570 metros cúbicos de água, o que é considerado suficiente para um período de estiagem. Durante o período em que o inverno não é favorável para o trabalho de captação da água, as cisternas são abastecidas por carros-pipas.
Tratamento e reuso são alternativas
Alternativas de incentivo à economia e reaproveitamento da água têm sido desenvolvidas para amenizar a problemática da seca na Paraíba. Para conscientizar a população sobre o desperdício de água, já que apenas três açudes do Estado estão com sua capacidade máxima, um projeto de Formação e Educação Ambiental, desenvolvido pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), e um estudo sobre o Reúso da Água e suas Potencialidades, do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), oferecem à sociedade medidas de combate aos danos provocados pela estiagem.
O projeto de pesquisa e extensão Formação e Educação Ambiental; uma contribuição à sustentabilidade territorial, coordenado pela professora de biologia da UEPB Mônica da Silva, busca formar líderes comunitários para orientar a população sobre o aproveitamento sustentável da água. Segundo a coordenadora, o projeto envolveu 180 alunos e formou cerca de 200 lideranças de 2013 até esse ano, em Campina e região.
Já no Insa, o estudo sobre o Reúso de Águas e sua Potencialidade para o Semiárido Brasileiro está quantificando quanto cada um dos 135 municípios do semiárido paraibano produz de esgoto, sob a coordenação de Salomão Medeiros. O intuito da pesquisa é que a água residuária tratada pode fazer parte do gerenciamento de recursos hídricos, através da reutilização da água. Uma das ações do projeto é sensibilizar o poder público para o tratamento dos esgotos, que disponibilizaria mais água para a população, destaca.
Mais de 190 cidades em emergência
Segundo dados do relatório da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil do Ministério da Integração, atualizados até a última semana do mês de setembro, o Estado da Paraíba tem 198 municípios em situação de emergência por causa da estiagem, o que representa 88,79% de todos os 223 municípios. Apenas 11,21% das cidades paraibanas não decretaram situação de emergência, o que corresponde ao número 25 municípios.
A situação de emergência garante os municípios receberem recursos para o desenvolvimento de políticas públicas para o controle da realidade. O coordenador da Defesa Civil do município de Campina Grande, Ruiter Sansão, disse que a publicação do decreto não garante a solução dos problemas.
Decretar situação de emergência é um fator negativo no sentido socioeconômico do município, isso porque os investidores olham esse fator como um agravante em consideração à região. Nós temos hoje o trabalho de abastecimento mais de cem cisternas que precisam ser abastecidas, isso fora as escolas rurais que também precisam da água, portanto, é uma tarefa árdua atender a tudo isso, e nem sempre os recursos são suficientes, porque tudo depende da aprovação, comentou Ruiter.
Investimentos de R$ 54 milhões
Os investimentos do Ministério da Integração e os programas em convênio com a contrapartida do Estado e municípios já totalizaram somente este ano na Paraíba mais de R$ 54 milhões.
O programa Bolsa Estiagem, criado em 2012 pelo Ministério da Integração para atender como auxílio aos agricultores das regiões do Semiárido, disponibilizou somente este ano o número de 681 mil bolsas para os agricultores da Paraíba, o que representa um investimento de aproximadamente R$ 54,4 milhões.
O pagamento do auxílio aos beneficiários é feito parcelado no valor de R$ 80 para agricultores de baixa renda que vivem em municípios que sofrem pelo longo período da estiagem. Outro programa destinado para os agricultores é o programa Garantia Safra, que funciona como uma espécie de seguro para as famílias que contraíram empréstimos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e tiveram prejuízos devido à seca.
O seguro é pago para quem perdeu a produção em cinco parcelas no valor de até R$ 140. O saque do benefício é feito por meio do cartão eletrônico através da Caixa Econômica Federal (CEF). Na Paraíba, o programa beneficiou 98,3 mil agricultores de 177 municípios, que efetivaram o cadastro de dados junto ao Ministério da Integração solicitando o seguro. Para o trabalho de perfuração de poços, os recursos destinados e pagos nos últimos dois anos pelo Ministério da Integração foram R$ 2,2 milhões.