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O ATELIÊ DA BENJAMIN CONSTANT. Por Misael Nóbrega

Por: Redação Fonte: Misael Nóbrega
23/05/2016 às 08h15
O ATELIÊ DA BENJAMIN CONSTANT. Por Misael Nóbrega

(Um registro da casa-viva do pintor Murilo Santos de Almeida, "onde morreram todos os doentes", em Patos, Paraíba)

O tracejar do pincel é o instante que se abre pelas frestas da janela o vento entra quase que sem ser chamado para forçar a porta semi-cerrada atrás da cena uma rua singular por testemunha e não se sabe se naquela passagem existe saída é algo sendo parido na ansiedade do próprio parto soluços em guaches e pincéis são ouvidos na calada da noite eventos que fluem do imaginário feito arte moderna em plena caverna do ser humano o escuro não nos dá medo as paredes grafadas são pedras filosofais e nos dizem que aquilo pode ser livros apócrifos sem a obrigação das horas letras que fogem com o sono indolente e cujo devaneio é talvez a única certeza do que somos feito revelação a liberdade é o tema de todos os quadros e o sangue coagulado é a tinta essencialíssima e o quadrilátero a abadia pois o sacrossanto é o discurso que se sustente pelo cavalete da ciência da técnica da persistência figuras que perguntam mais que respondem e que não fazem outra coisa senão doutrinar para o sacrifício assim périplo cruz calvário não direi inocência pois seria dizer a mesma coisa que insanidade e ali a loucura de Roterdã sempre foi ponto de arranque e isso justifica todas as idades a própria extrema-unção o natimorto ou aquele que esmola os seus anos atestamos a cada pincelada um vida duas vidas e gerações e reencarnações e transcendentalismos e metabolismos compostos metafísicos é a linguagem encerrando capítulos e reabrindo outros além e dando coragem para o enfrentamento e nada é real o espelho quebrado de forma aparente a deformação do esquadro o tamborete que tem a explicação dos semi-divinos e que também se parece com atlas carregando o mundo a menina que se pinta como se fosse a uma festa e que é uma virgem pelo globo ocular do pintor a mesma que todos os dias morre em seus braços e que se nutri do leite do peito do pai do filho e do espirito santo na mesa de madeiro artesanal ou no armário démodé um sem-número de pertences de outras épocas um escapulário ainda por terminar uma revista que fala em Picasso um livro de Graciliano Ramos Uma Bravo um tronco de árvore no degrau da escada que não leva a lugar nenhum uma pintura de uma mulher que eu gosto com a sua nudez acentuada e que após ser maculada fora dependurada um pouco acima de um grito rabiscado a cara de um boi uma moldura sem pano Camille Claudel um recorte de jornal um Cotidiano amassado também anteparo de ontem com as suas letras caindo sobre o sofá de muitas noites de amor sem esquecer a aquarela de mil vertigens que borra o esbranquiçado do mundo na mistura lúdica sensual política crítica universo conteúdo e continente a própria esquina a canalização dos valores a ética a estética a moral o imoral um sapo com semblante de Renoir que reflexivo vigia o artista e um bilhete um valete um disco de vinil que teima em descortinar todo esse passado citado um auto-retrato na insistência de querer se encontrar o flagelo não a comiseração a amálgama dos matizes de Íris que passa a ser mortal e sofre porque também existe uma fera dentro dela e que naqueles muros inóspitos tudo é recorrente capela de frágeis imagens onde só o amor redime e o pecado é negado e as lembranças viram quadros e muito pouca coisa muda suave uma música que enfim reparte os mundos e que ecoa naquele porão me chega aos ouvidos uma voz que lembra Ney Matogrosso a conversa desfiada quase novelo a curtição a voz de Deus a voz da mãe a voz da vida a voz do diabo a face do pai o irmão a irmã o filho o filho do filho a consciência e a "alegoria" ora carne feito modelagem abençoada por Rodin um café meio amargo a fumaça do cigarro por sobre as cabeças decepadas a tosse e o pigarro constantes trivialidades humanidades e só podem derivar do nada mesmo uma noite de segunda-feira morna 22 horas e tudo se faz começo...

Misael Nóbrega de Sousa - Professor e jornalista

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