
Observando o campo de anomalias de TSM (Temperatura da Superfície do Mar) atual (figura ao lado), é possível ver algo “anormal”, e um péssimo sinal para a estação chuvosa do semiárido em 2016, apesar de indicar um aumento da probabilidade de chuvas isoladas no semiárido paraibano a partir do dia 15 de Dezembro, e durante o mês de Janeiro. O Oceano Atlântico Sul, na altura na costa da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte já está quente ainda na primeira quinzena de Dezembro, essa é a afirmação do físico, meteorologista e mestre em Meteorologia Rodrigo Cézar Limeira.
Para o estudioso, o aquecimento normal do Atlântico Sul na costa desses estados deve começar entre o inicio de Fevereiro e fim de Março, se mantendo até o final de Maio, mas atualmente foi antecipado, fato que não é bom, pois desobedece ao ciclo normal de aquecimento dos oceanos no hemisfério sul, pontua.
O físico diz que o mês de Março é considerado o mais chuvoso, pois é nesse mês que o Oceano Atlântico Sul se encontra em média mais quente, e enfatiza, a estação chuvosa do semiárido (setor norte do nordeste), dura de Fevereiro a Maio, pois é nesse período que o referido oceano na altura da costa dos 03 estados também se encontra mais quente.
Essa antecipação do aquecimento do Oceano Atlântico Sul, na costa da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, é anormal, assim como é anormal também observar conforme indica a figura acima, que Atlântico não esquentou na costa das Guianas, Amapá, Pará e Maranhão, e era para estar quente nessas áreas agora em Dezembro. Ou seja, está havendo uma inversão no aquecimento do Oceano Atlântico.
Para Rodrigo, o aquecimento dos oceanos é cíclico, ou seja, em anos de normalidade, ou que tendem a ser chuvosos no semiárido, o Atlântico segue a seguinte sequência cronológica de aquecimento:
1) Outubro e Novembro: esquenta na costa das Guianas, Amapá e Pará;
2) Dezembro e Janeiro: esquenta na costa do Maranhão, Piauí e Ceará;
3) Fevereiro e Março: esquenta na costa do Rio G. do Norte, Paraíba e Pernambuco.
Dessa forma, conforme a sequência de aquecimento apresentada, é possível afirmar que o aquecimento do atlântico na costa norte da América do Sul, ocorre no sentido de norte para sul, sendo que dentro dessa faixa de aquecimento, compreendida entre 12° de latitude norte, e no máximo 6° de latitude sul, atua a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), também chamada de zona de convergência dos alísios, que são ventos de nordeste oriundos do hemisfério norte, e de sudeste oriundos do hemisfério sul. Esse fenômeno meteorológico atua no norte da América do Sul provocando chuvas, e sua atuação no Brasil ocorre no norte da região Norte, e norte da região Nordeste, do qual faz parte o semiárido nordestino. A atuação desse sistema meteorológico especificamente sobre o semiárido nordestino, depende do aquecimento do Oceano Atlântico Sul dentro do período de Fevereiro a Maio, caso isso não ocorra, as chuvas ocorrem de forma irregular e abaixo da média no referido período no setor norte do nordeste. Quanto mais quente estiver o Oceano Atlântico Sul dentro de citado período, mais intensas são as chuvas na referida região.
Por que 2016 terá seca no semiárido nordestino?
Foi apresentado anteriormente um dos motivos para a ocorrência de mais um ano de seca no semiárido, o aquecimento desordenado e anormal dos Oceanos Atlântico Norte e Sul, como causa principal para o período de anos com chuvas abaixo da média, observado entre 2012 e 2015, e que também deverá ter impacto negativo na precipitação pluviométrica sobre o semiárido nordestino, e especificamente paraibano em 2016.
Agora em 2016, conforme já frisou o físico, meteorologista e mestre em Meteorologia Rodrigo Cézar Limeira, há um outro fator, também oceânico, e que tem relação direta com eventos de secas ocorridos no setor norte do nordeste, o El Niño.
O atual episódio do fenômeno oceânico atmosférico El Niño, é um dos mais intensos já registrados, e disputa com o El Niño 1998, o título de El Niño mais forte de todos os tempos.
A figura debaixo apresenta com base em dados atuais, o campo de anomalias de TSM (Temperatura da Superfície do Mar) na região do Pacífico Equatorial (central), onde é possível observar a ocorrência de um El Niño muito intenso, onde as anomalias de aquecimento na chamada região do Niño 3,4(centro do Pacifico), atingem até 5°C acima da média.
A região do Niño 3,4, determina o padrão de circulação dos ventos em altitude sobre o semiárido do nordeste brasileiro, e esta região está muito quente, em média entre 3°C e 4°C acima do normal. O fato do Pacífico está muito quente nessa região indica a ocorrência de forte subsidência de ar sobre o semiárido, sendo que o ar subsidente, ou que desce de altos níveis em direção à superfície, inibe a formação de nuvens de chuva no semiárido principalmente no período de estação chuvosa da região, que vai de Fevereiro a Maio. Além disso, segundo a Climatologia, o El Niño dura entre 12 e 18 meses, como se configurou em Abril de 2015, deve durar no mínimo até Abril de 2016, sendo que já terá comprometido a qualidade da estação chuvosa no semiárido próximo ano.
Já a região do Niño 1,2 que fica adjacente à costa do Peru, tem correlação direta com a circulação dos ventos em altitude sobre o norte da região Norte do Brasil, e também se encontra com temperatura mais acima normal. Fato que também deverá provocar chuvas abaixo da média na citada região. Porém é importante mencionar que em alguns casos podem ocorrer “El Niños Anômalos” com o ocorrido em 2010, na ocasião, dentro de período de Fevereiro a Maio o Pacífico Central estava com temperatura acima do normal na região do Niño 3,4, isso fez chover abaixo da média na região do semiárido nordestino, enquanto na região do Niño 1,2, as temperaturas das águas do Pacífico estavam abaixo da média, isso fez chover acima da média acarretando enchentes no norte da região Norte do Brasil. Esse tipo de El Niño Anômalo é chamado de El Niño Modoki.
O El Niño atual é do tipo tradicional, ou seja, que provoca chuvas abaixo da média tanto no norte da região Norte do Brasil, como no norte do Nordeste.
Rodrigo Cézar Limeira – Portal Ciência em Foco (www.cienciaemfoco.com)