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SANTA FRANCISCA

Por: Redação Fonte: Misael Nóbrega
23/11/2015 às 23h57
SANTA FRANCISCA
Desde muito antes de eu nascer, a menina Francisca já era mártir. Algo em torno de 20. O assassinato foi um crime sem culpados. O júri absolveu os suspeitos. Pai e mãe. A história os condenou. Criminosos, de fato? Uma peça de teatro, um retrato falado, uma reportagem de revista, uma cruz... – É bem ali o lugar onde a menina jazera morta à pauladas! Dizem que os restos foram depositados num saco de estopa; e, após, ataram-lhe à boca, para que as aves de rapina não se alimentassem da morta. Corpo moreno, minguado, virginal, cheio de vida, imaginação. – Um pulo para o lado de fora; uma volta descuidada para dentro de casa. Uma janela entreaberta: portal do inferno (ou seria do céu?). A desobediência lhe custaria os anos vindouros. – A menina perdeu a vida; ganhou a eternidade. Bem mais pra frente, coisa de 50 anos, fomos vizinhos de Francisca, na Rua da Pedra. Nenhum vestígio dela. Apenas, um sonho aflitivo de minha mãe: à cabeceira da cama, um vulto com o rosto coberto por um véu e um livro nas mãos, velava o seu sono grávido. Minha mãe carregava gêmeos: um menino e uma menina. Um Francisco e uma Francisca. Dois caixões de anjo. Duas cruzes no cemitério. Minha mãe pariu natimortos. Minha mãe e seu fadário. Minha mãe, meu pai e eu. A mesma rua. Outra família. A mesma desgraça. Outra história. A bênção padrinho. Chame o traslado. Faróis no breu da noite. Silêncio no taxi. O pio de uma coruja. Consciências agoniadas. Já estamos distantes. A mentira tem pernas curtas. O tempo por testemunha... – Quem desconfiaria da desova? – Os olhos de todos os vivos. Os bichos que rastejam e voam. Os dias de calor e as madrugadas de frio. As árvores da pior seca. Até as pedras, também, desconfiaram. E, por fim, os olhos de todos os mortos. Francisca que era filha de ninguém, tornara-se filha de Deus. Descrente na justiça dos pares, o homem criou o enredo dos milagres. E o regueiro brotou em meio à caatinga inundando às necessidades espirituais de quem precisava de fé.  Para a pubescente, erigiram um castelo. Vieram as orações, os romeiros e ex-votos; e a igreja, e os políticos, e o comercio... - E a pobre Francisca da Cruz da Menina ainda hoje continua sem paz.
 
Misael Nóbrega de Sousa - Jornalista
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