Na estreiteza da manhã uma vozinha arguta se levantava e na ponta dos pés requeria afago. Repetia-se com a esperança dos que não tem garantia nenhuma:
- “Mãe, me escuta”.
A criaturazinha fazia de tudo para chamar a atenção; batia palmas, dava uns assobiozinhos afracados, abria o velcro da sandália, ensaiava uns passinhos de dança engraçada, encostava a cabeça no vidro que reveste a parede e soprava causando um pequeno embaçamento do lado de dentro.
Pegou todos os folders da Campanha de Combate e Conscientização ao Câncer de Mama e com eles brincou de ser voluntário da amorosidade. Abriu e fechou a bolsa da mãe umas setenta vezes. Escorregou pelos vãos do sofá para obter atenção materna, mas ela continuou perseverando nas vias labirínticas da falta de afeto. Visualizando e respondendo mensagens e ouvindo áudios pelo whatsapp.
Aquele toquinho de gente morena deve contar uns quatro anos e uma saúde invejável. Trocamos uns olhares sinceros e sorrisos desses bem encomendados. Eu também aguardava enquanto ele desafiava o silêncio daquela secura de povo, tendo os olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
Catorze adultos incluindo sua mãe esperavam na recepção de um conhecido Hospital.
Com exceção de um idoso que cochilava e de uma jovem que sentia dores, todos usavam seus celulares, notebook, ipod, tablet e outros aparelhos que permitem que a indiferença se instale.
Subi para realizar a mediação agendada. Da escada acenei pra ele. Devolveu-me a mão direita posta.
Atravessei toda a ala hospitalar pensando no Drummond. Ele propôs uma canção que fizesse acordar os homens e adormecer crianças.
Estamos cada vez mais fomentando relações frias e distantes. Embriagados de mesmices caminhamos ao contrário das ternuras.
É preciso cavoucar a cura no oitão do simples. Rebuscar esperanças e abraçar as boas causas assim como faz os semeadores da bem aventurança.
Viva o Outubro Rosa.
Palmas para os professores! Parabéns, médicos!
Amemos mais nossas crianças!